vermelho

Parece que sangro.

Abaixo para entender de onde vem aquele vermelho que suja o chão do banheiro e se mistura com a água até o ralo. De cócoras, olho os meus pés. Cortei as unhas rentes demais e feri a ponta do dedo anelar. Lavo com sabão e deixo cair mais água para estancar. Sinto a dor antecipada do machucado sendo apertado pelo sapato ao longo do dia.

Levanto com o sabote nas mãos e olho a calcinha pendurada no pequeno varal improvisado ao lado do xampu e das giletes. Uma mancha escura no meio. Estou nos últimos dias e, da perna, também escorre um filete vermelho quase transparente. Antes de limpar, aproveito para liberar o xixi que prendia sem nem perceber. Puro hábito.

Continuo o banho com a cabeça longe. Repito os gestos de sempre, de forma automática, e busco a escova de dentes na pia. Ao cuspir, vejo que a espuma está de outra cor. Também ela tem um pouco de sangue. Passo a língua pela boca e sinto um gosto ácido. Tenho as gengivas inflamadas mais uma vez. Mostro-me os dentes no espelho e o falso sorriso me assusta; vermelho.

Percebo que sangro por inteira. Escorro de dentro para fora em fortes cor e sabor.

Quase tudo o que acontece por dentro da gente circula por comandos muito pouco conscientes. Não escolhemos respirar, trocar os gases no coração e depois soltar o ar. Não pedimos para mandar o sangue molhar o dedo com a unha cortada. E nem planejamos liberar as células que não foram usadas neste ciclo. Apenas vivemos e seguimos existindo nessa lógica.

E desse mesmo jeito aprendemos a ocultar outros fenômenos de nós. Colocamos por baixo de camadas mais ou menos visíveis o que é de difícil exposição. Até quando seja possível segurar.

Saio do banho. Olho o corpo nu e só vejo pele. Branca e coberta de sinais disformes. Não há vermelho por parte alguma. Não há sangue, cortes ou inflamações que cheguem aos olhos. Por fora, tudo continua equilibrado; nada salta nem jorra.

Assim, me enxugo. Escondo o que guardo por dentro e me visto para trabalhar.

 

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imagem do Pinterest (via: clurichauns)

brilho

Da areia, olho para o mar. Fico hipnotizada por aquela cor que transita elegantemente entre o azul e o verde. E também fascinada pelo seu pacato balanço. E pelas memórias que tudo aquilo me traz. Estão todas misturadas, confusas; ainda suspensas tentando assentar em algum lugar dentro de mim.

Não sinto vontade de mergulhar. Aquele mar me encanta, mas não me chama. As águas são calmas e não movimentam nem mesmo as poucas jangadas ali ancoradas.
De súbito, lembro de algo que até então passara despercebido. Essas são outras águas. São as antigas: de casa e de temperatura amena. Puxada pela lembrança, vou andando até a borda e sinto o calor nos pés. Entro de uma vez e, mornas, elas me abraçam.

Um abraço suave, que logo estranho. Sinto falta do susto, do gelo, do impacto. A sensação é de lembrar de um amor antigo com carinho, mas sentir falta das emoções do novo despertar de sentidos.

Volto a cabeça à superfície e tenho a certeza de que estou vivendo um daqueles momentos em que você se dá conta de algo importante. Repasso dias, minutos e cenas de uma vida de quem anda tendo coragem de enfrentar os medos. Lembro de soltar o ar dos pulmões para respirar melhor.

Este é um momento raro. Não tenho problemas a resolver. Ou se tenho, já não posso ouví-los.
Saio do mar e olho para a minha pele. Estou brilhando. Por todo o corpo levo pequenos resquícios de algo que se acende com o sol.
A minha purpurina vem do mar. Ela brilha e é discreta.
É uma mistura de areia e sal.
Dias depois, volto para casa, a nova, e ela inteira tem um pouco de areia. O que me faz lembrar daquele mergulho caloroso. Sinto que meu peito agora está aceso por lembranças luminosas, formadas de água salgada e um punhado de rocha dissolvida pelo tempo.
Não adianta varrer. Quartos, banheiro e sala estão reluzindo. É como estar de férias o ano inteiro.
Ou melhor: é como brilhar durante o carnaval particular que me ocorre em cada dia do ano.
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imagem do pinterest

 

trem

Eu sabia desde o princípio aonde essa história iria dar. Começou com um chamado sem muito interesse e jogado na madrugada. Mas antes mesmo de você me convidar eu já estava indo. Calada e com poucas certezas, deixei o corpo pender, me guiando.

Aos poucos, fui gostando do alvoroço que fazia por dentro. Gostava de responder às sensações instantâneas, de não entender muito bem para onde o barco levava e de tatear o colchão para lembrar onde acordava em mais uma manhã.

Com você, saí daquela letargia. Despertei do sono profundo dos sentidos, que deixavam só o corpo a mercê dos estímulos. Até hoje, sinto teu gosto nos goles desmedidos de cachaça, cada vez mais espaçados.

Fui ao teu encontro sem pedir recompensas, sem perguntar o que tinha depois da esquina, sem contrato assinado ou comprovante de residência. Só segui, ouvindo o eco das noites. Deixei o sereno me colocar pra dormir, sem procurar por cobertor.

A verdade é que escrevi esta carta pra você em muitas partes. E de muitas formas. Usei lápis e caneta preta em cursos de escrita. Escrevi frases perdidas no canto do caderno. Copiei de livros de poemas. Reorganizei parágrafos desconexos na minha cabeça. Fui compondo passo a passo dessa quase história e, depois, fui misturando com o que batia no peito. Ao longo do tempo, percebi que eram apenas palavras de agradecimento que te endereçava.

Queria te agradecer por muitas coisas.

Porque eu aprendi a gostar daquela mulher que sou quando perco o controle. Real e corajosa. Que fingiu não ter medo de perder o chão. E que, mesmo saindo partida desse jogo de entrega, se atiraria de novo na frente desse trem descarrilhado que é gostar de alguém.

Por fim, eu te agradeço por muitas coisas, mas principalmente por aquele amor que você não me deixou viver.

Beijos,

Érica.

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domingo

Alguns dias, tenho medo de enlouquecer. Às vezes chego a pensar que estou vendo as coisas se embaralharem na cabeça. Não vem a ser pela falta de sentido, pelo contrário. Costuma ser uma consciência exacerbada de como a vida vai acontecendo. Seu curso, seus caminhos e seus efeitos. Tudo claro e exposto. Lucidez, por vezes, cega.

Viver é muito perigoso. Ando repetindo. Não é morrer que assusta. Viver é onde o negócio pega.

Terminei de ler a reportagem que falava de alguém que nem conheço. Mas senti a sua dor de existir. Ser é uma coisa, por si só, grande demais. A história daquela pessoa me lembrou outra, que ouvi contarem em uma peça de teatro. Distantes nos fatos, mas próximas no sentir. Porque no fim das contas, sentir é tudo como um negócio só, não é não? A dor só muda de endereço.

“Mas as pessoas escolhem viver assim”. Como se viver fosse questão de escolha. A gente vive porque não tem mesmo outra opção. É a única saída. Só que no percurso a gente vai tomando gosto. Vai buscando explicações, vai criando significados e inventa a convicção de que é algo que precisa ser feito. Viver. Até o fim. Aí já não tem mais jeito e a gente chega mesmo a amar a viagem, as nuances, os percalços, as histórias – e conclui que é a opção mais segura.

Sigo pensando na morte. Ou é na vida que penso? Morrer é perceber que a vida é real. E real demais. A morte desvela o que todos os dias esquecemos. Ela nos aproxima da urgência de existir. Nos lembra que há tempo a ser preenchido com nós mesmos.

Penso tudo isso e me despeço de quem precisa ir. Sento e observo o domingo acontecendo pela minha janela. Os medos se esconderam. O ônibus passa e faz menos barulho do que o costume.  Faço planos de ajeitar minha bicicleta durante a semana. Abaixo o volume do som e tiro as roupas do varal em silêncio. Sinto o gosto do primeiro gole de café de uma manhã quase tarde.

Volto a ter devaneios e me alegro com uma página em branco.

Viver é muito perigoso. Que sorte poder contar com os domingos.

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foto do pinterest

estante

Luli,

Você sabe explicar onde mora? Digo, o que faz da nossa casa o lugar onde moramos? Não me tome como louca ou variante, mas me ocorrem alguns pensamentos confusos sobre esta questão de habitar e ocupar espaços.

Acordei num dia cinza e quase frio aqui no litoral. Você, daí, iria rir quando digo que sinto frio aos 19ºC. Mas finalmente levantei decidida a ajeitar todas essas caixas que já juntavam poeira aqui pelos cantos deste lugar que aprendo a chamar de casa.

Comecei a tirar as almofadas, o tapete de fitas, as canecas que ganhei de presente, os quadros (quantos quadros!). Tudo muito colorido, estou achando. Você também iria rir disso. Vou te mandar uma foto mostrando como ficou e você me conta se está exagerado demais, tá bem?

Enquanto desembrulhava as camadas sem fim de plástico bolha, fiquei matutando umas coisas… Quando me preparava para deixar mais um lar, meio de supetão, as pessoas vieram me falar bonitezas sobre voos e asas e, na época, eu fiquei tentando me lembrar quando eu decidi viver assim: de salto em salto, sem me incomodar com as quedas que eventualmente acontecem. Talvez venha daquele tempo de criança, quando eu caia demais porque não enxergava muito bem e aí fui entendendo que do chão mesmo a gente não passa. E se passar, é por pouco.

Sem me preparar muito eu tirei os pés do chão. E percebi que era impossível embalar as emoções em plástico bolha. Essas estão sempre um tanto desprotegidas.

Assim, voei leve sabendo que deixava em terra todos os corações que cruzaram com o meu. Tenho neles um pouso garantido e é só pela certeza dos retornos que me sinto segura para partir; de novo e de novo.

Mas a medida que peguei velocidade, do alto, no ar, vi que o problema não era só o medo de cair, mas de me perder no espaço. Além de chão para pousar, eu precisava de teto. E também precisava de paredes. Para pendurar tantos quadros e para descansar as costas de vez em quando.

A questão é que todas essas moradas, lares, afetos, abraços e voos fizeram um rebuliço danado aqui dentro de mim. Ficou tudo quase tão bagunçado quanto aquele armário que a gente tinha na sala de jantar, lembra?

A vida ficou suspensa. Tinha voado tanto, que me faltou ar. E me faltaram outros olhos pra olhar, outra pele pra tocar. Um colo pra poder deitar.

Sei que aos poucos fui transformando o próprio peito em lar. Ainda assim, precisei parar e  reconhecer que, às vezes, saio da rota se sigo muito tempo sozinha. Porque sou peixe de cardume. Loba de matilha, pássaro de bando. Sou do tipo de gente que conjuga o verbo no plural.

Pois bem, parece que me alonguei, amigo. Desencaixotar os poucos trapos que acumulei até aqui parece ter surtido um efeito terapêutico. Desculpe-me, tenho andando prolixa nas ideias e isso derrama em meus escritos. Mas a verdade é que comecei a escrever este bilhete, que terminou virando uma carta, porque tinha comprado uma estante nova para colocar meus livros. Ela deve chegar na próxima semana aí neste endereço onde eu já não moro mais. Quero saber se você poderia guardá-la desmontada naquele quarto de trás. Prometo ir buscá-la assim que tiver paredes firmes para (re)pousá-la.

Talvez demore.

Um beijo,

Ana.

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madrugada

É como se fosse carnaval e seus olhares tivessem se cruzado meio sem querer quando alguém gritou ”ó o pesado” tentando passar no meio da multidão com um saco de gelo de 12 quilos na cabeça. Mas aí veio uma tumba e os olhinhos se perderam; e tudo bem porque quem eram vocês um pro outro até ali, afinal. No outro bloco, um pouco mais na frente, vocês se esbarraram de novo naquela disputa pela latinha pela cerveja menos quente do isopor. Reconheceram os olhares e sorriram. Acabaram tomando uísque. Bastou pouco para que no lusco-fusco de outros reencontros e troças, vocês estivessem dividindo gracejos com mais umidade.

Nem tão de repente, a festa acabou, a luz apagou, o carnaval passou, as lantejoulas da saia se misturaram com o resto de cerveja quente no meio fio e, ainda assim, o festejo de vocês continuou. No olhar de cada um, entrou uma purpurina tipo um cisco que não queria mais sair. As coisas passaram a brilhar sozinhas e era bem o brilho grudado da íris que iluminava.

Passou o baile e vocês seguiram até o dia em que dançaram aquela música de Gal no banheiro, às sete horas da manhã, de toalha, antes do trabalho. E tomaram um susto! Quais caminhos tinham tomado até chegar ali?

Quase como investigação, abriram um mapa no peito, tentando ligar a cabeça com outros sentidos e traçaram percursos errantes e tortos, meio molhados de chuva e lágrima. Parecia mesmo um mistério.

Mas sabiam que o querer bem, por si, não tinha nada de mágico. E nem é místico ou cabe em um jogo de tarot. Seria fácil dizer que foi destino. Preferiram não.

Na busca, os enigmas se dissolviam ainda de madrugada. Quando um dos dois acordava entorpecido de sono e lembrava da outra existência bem ali do lado. E passava a mão procurando um corpo quente. E aí se percebiam e tanto fazia se sonhavam em preto e branco ou colorido.

Descobriram, por fim, que a beleza dos encontros fortuitos e daqueles olhos que se cruzaram no carnaval (ou dentro do ônibus, ou na manifestação contra as reformas ou mesmo naquele bar em Belém) estava em não esconder as fraquezas do sentir.

A doçura, o terno e a vontade de mimar você nas quatro estações vinham do oposto. Era preciso escancarar o fato de que tudo aquilo podia ir embora como veio, com álcool ou na correnteza fraca do rio.

Pode ir, mas também pode ir ficando. Sem pressa, sem aperreio e com gosto de mamão com café com leite pela manhã.

Porque só cai de amor quem anda distraído o suficiente para tropeçar em outros corações. E só repousa nele quem se dispõe a sangrar.

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Hallie Bateman

faz frio

Numa praça em São Paulo, nas primeiras horas da manhã, a água bate na pele como fagulha de tiro. Dói e espanta. A noite foi fria, a manhã segue gelada. E funcionários da prefeitura obedecem a ordem de acordar as pessoas que ali dormiam com disparos de falta de humanidade.

Em outro local, outras pessoas que têm o céu como teto se aglomeram pra tentar se aquecer. Ouvi no rádio a moça dizer que é mais difícil moradores de rua que estão em grupo sucumbirem ao inverno. Trocam cobertas, oferecem goles do que bebem e aprendem a se esquentar. Sozinhos, morrem. Juntos, compartilham da humanidade que carregam mesmo sem saber.

De frio e de tiro, matamos e morremos. Mas quando somos coletivos e partilhamos do existir, sobrevivemos às mais extremas temperaturas. E com sorte, criamos coisas lindas no caminho.

 

(postado no facebook em 19 de julho de 2017)