gaveta

Tomo remédio para matar um tipo de vida que cresce em mim. De doze em doze horas é preciso lembrar da fórmula que ataca esses seres que só conheço de nome. São invisíveis e me atingem na fala. Fazem doer onde preciso sair. São vidas que eu mesma cultivei, veja só.

Sinto também outra dor. De algo que precisa escorrer para manter o ciclo; mas está preso, contido, retido. Um mal estar físico – ao menos – sai pela pele e diz que algo não vai bem nas partículas mais pequenas.

Não consigo lembrar de mim. Distante, difusa e nebulosa, nem noto o jasmim cor de rosa caído no chão.

Faço um esforço. Espero mensagens que nunca vão chegar, acredito tempos que não vão amansar, anseio por mudanças que continuam iguais. Penso em Clarice: ando cansada, extremamente ocupada e tomando conta do mundo.

Seguro nas duas mãos o café que vai machucar meu estômago em instantes. Agora, é tudo assim. O meu pouco de idade pesa e preciso ter moderações.

Já não vejo o sol há dias e nem mesmo escuto a chuva cair. No lugar, ouço as dores de amigas – e reconheço os percursos que precisaram percorrer sozinhas para acender alguma luz na caverna dos outros. Desbravamos.

Vasculho os escombros do meu bloco de notas. Frases desconexas e palavras bêbadas anotadas sem compromisso. Parar me agita. Sigo no fluxo, faço mais café.

Exijo respostas e – em terapia – repito as mesmas palavras de sempre. O ar voltou aos pulmões; agora é só a dor para desvendar.

Jorro todos esses lamentos para abafar uma verdade: a carta mais difícil de escrever talvez eu nunca consiga terminar. Vai ficar perdida e esquecida em esboços e pedaços soltos de papel; misturados na gaveta com notas fiscais, lixo e um pedaço gasto de lixa de unhas.

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mar e morangos

Aqui chove e eu resolvi escrever esta carta – que não sei bem ao certo se é para você ou para mim.

Como companhia, trouxe para o quarto a térmica com café fresco e me sinto um pouco culpada sabendo que você vai continuar com aquele trato de tomar chá pela manhã enquanto eu sucumbo ao hábito; ou vício.

A questão é que chove, como naquele dia na ilha em que um livro de poesia nórdica me fez companhia. Lembrei mais uma vez da chuva a lavar os morangos – ou eram os pratos que ela lavava? Estiquei o braço e busquei o livro na cabeceira, o mesmo. Não durmo longe dele, fisicamente, desde aqueles dias.

Abri em uma página que estava já marcada, a do poema dos morangos, como não? Li primeiro, antes de ver o pedaço de papel a marcar alguma coisa. “Sem apressar a festa para chegar ao fim”. Foi aí que olhei: uma foto. Daquela sessão que você espalhou pelo meu quarto, escondidas nas minhas roupas, livros e gavetas, num dia de breve despedida.

Na imagem, somos nós dois e o mar. Somos nós dois e o mesmo muro pequeno onde estivemos ontem, relembrando as fotos bonitas que já batemos ali. Esta, por sinal, nos passou despercebida. Foi a primeira, lembra? Saídos ainda trôpegos de uma festa de rostos estranhos onde só nos restou confessar sobre amores e passados.

Atrás da foto tem um escrito, como em todas as outras que você deixou: ”altruísmo, egoísmo”. Ou talvez a ordem seja inversa, mas quero que seja essa. As palavras fazem parte de uma conversa engraçada sobre suas manias de repetir com ar professoral coisas que te encantam. Eu acho lindo. Mas hoje, elas falam diretamente com essa dor que me salga os olhos.

Nos encontramos nas águas. Navegamos um rio, dançamos na chuva e mergulhamos no mar. Fizemos delas, fluidas, uma testemunha do nosso amor. E com elas tento aprender que nada é fixo. Estamos em movimento, como é bom. E preciso admitir: somos mesmo, como você falou, essa mistura maluca de pensamentos de ações a transitar pelo egoísmo e pelo altruísmo. Assim, nos mantemos vivos ao longo de gerações.

Mas eu quero ainda acreditar que não basta estar vivo; é preciso sentir em chamas o peito. E, para isso, só desequilibrando a balança. Só seguindo o caminho em que o eu vai perdendo sentido. Em que o meu sorriso reside na tua capacidade de também sorrir. E, para isso, é preciso renunciar de si para abraçar o nós.

Eu nunca tomei o mar como inimigo. Nunca tive medo de suas travessias. É um aliado para quem agora entrego meu amor.

Navega, meu bem. E volta – pois ainda há terras a se avistar no meu coração.

Júlia.

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vermelho

Parece que sangro.

Abaixo para entender de onde vem aquele vermelho que suja o chão do banheiro e se mistura com a água até o ralo. De cócoras, olho os meus pés. Cortei as unhas rentes demais e feri a ponta do dedo anelar. Lavo com sabão e deixo cair mais água para estancar. Sinto a dor antecipada do machucado sendo apertado pelo sapato ao longo do dia.

Levanto com o sabote nas mãos e olho a calcinha pendurada no pequeno varal improvisado ao lado do xampu e das giletes. Uma mancha escura no meio. Estou nos últimos dias e, da perna, também escorre um filete vermelho quase transparente. Antes de limpar, aproveito para liberar o xixi que prendia sem nem perceber. Puro hábito.

Continuo o banho com a cabeça longe. Repito os gestos de sempre, de forma automática, e busco a escova de dentes na pia. Ao cuspir, vejo que a espuma está de outra cor. Também ela tem um pouco de sangue. Passo a língua pela boca e sinto um gosto ácido. Tenho as gengivas inflamadas mais uma vez. Mostro-me os dentes no espelho e o falso sorriso me assusta; vermelho.

Percebo que sangro por inteira. Escorro de dentro para fora em fortes cor e sabor.

Quase tudo o que acontece por dentro da gente circula por comandos muito pouco conscientes. Não escolhemos respirar, trocar os gases no coração e depois soltar o ar. Não pedimos para mandar o sangue molhar o dedo com a unha cortada. E nem planejamos liberar as células que não foram usadas neste ciclo. Apenas vivemos e seguimos existindo nessa lógica.

E desse mesmo jeito aprendemos a ocultar outros fenômenos de nós. Colocamos por baixo de camadas mais ou menos visíveis o que é de difícil exposição. Até quando seja possível segurar.

Saio do banho. Olho o corpo nu e só vejo pele. Branca e coberta de sinais disformes. Não há vermelho por parte alguma. Não há sangue, cortes ou inflamações que cheguem aos olhos. Por fora, tudo continua equilibrado; nada salta nem jorra.

Assim, me enxugo. Escondo o que guardo por dentro e me visto para trabalhar.

 

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imagem do Pinterest (via: clurichauns)

brilho

Da areia, olho para o mar. Fico hipnotizada por aquela cor que transita elegantemente entre o azul e o verde. E também fascinada pelo seu pacato balanço. E pelas memórias que tudo aquilo me traz. Estão todas misturadas, confusas; ainda suspensas tentando assentar em algum lugar dentro de mim.

Não sinto vontade de mergulhar. Aquele mar me encanta, mas não me chama. As águas são calmas e não movimentam nem mesmo as poucas jangadas ali ancoradas.
De súbito, lembro de algo que até então passara despercebido. Essas são outras águas. São as antigas: de casa e de temperatura amena. Puxada pela lembrança, vou andando até a borda e sinto o calor nos pés. Entro de uma vez e, mornas, elas me abraçam.

Um abraço suave, que logo estranho. Sinto falta do susto, do gelo, do impacto. A sensação é de lembrar de um amor antigo com carinho, mas sentir falta das emoções do novo despertar de sentidos.

Volto a cabeça à superfície e tenho a certeza de que estou vivendo um daqueles momentos em que você se dá conta de algo importante. Repasso dias, minutos e cenas de uma vida de quem anda tendo coragem de enfrentar os medos. Lembro de soltar o ar dos pulmões para respirar melhor.

Este é um momento raro. Não tenho problemas a resolver. Ou se tenho, já não posso ouví-los.
Saio do mar e olho para a minha pele. Estou brilhando. Por todo o corpo levo pequenos resquícios de algo que se acende com o sol.
A minha purpurina vem do mar. Ela brilha e é discreta.
É uma mistura de areia e sal.
Dias depois, volto para casa, a nova, e ela inteira tem um pouco de areia. O que me faz lembrar daquele mergulho caloroso. Sinto que meu peito agora está aceso por lembranças luminosas, formadas de água salgada e um punhado de rocha dissolvida pelo tempo.
Não adianta varrer. Quartos, banheiro e sala estão reluzindo. É como estar de férias o ano inteiro.
Ou melhor: é como brilhar durante o carnaval particular que me ocorre em cada dia do ano.
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trem

Eu sabia desde o princípio aonde essa história iria dar. Começou com um chamado sem muito interesse e jogado na madrugada. Mas antes mesmo de você me convidar eu já estava indo. Calada e com poucas certezas, deixei o corpo pender, me guiando.

Aos poucos, fui gostando do alvoroço que fazia por dentro. Gostava de responder às sensações instantâneas, de não entender muito bem para onde o barco levava e de tatear o colchão para lembrar onde acordava em mais uma manhã.

Com você, saí daquela letargia. Despertei do sono profundo dos sentidos, que deixavam só o corpo a mercê dos estímulos. Até hoje, sinto teu gosto nos goles desmedidos de cachaça, cada vez mais espaçados.

Fui ao teu encontro sem pedir recompensas, sem perguntar o que tinha depois da esquina, sem contrato assinado ou comprovante de residência. Só segui, ouvindo o eco das noites. Deixei o sereno me colocar pra dormir, sem procurar por cobertor.

A verdade é que escrevi esta carta pra você em muitas partes. E de muitas formas. Usei lápis e caneta preta em cursos de escrita. Escrevi frases perdidas no canto do caderno. Copiei de livros de poemas. Reorganizei parágrafos desconexos na minha cabeça. Fui compondo passo a passo dessa quase história e, depois, fui misturando com o que batia no peito. Ao longo do tempo, percebi que eram apenas palavras de agradecimento que te endereçava.

Queria te agradecer por muitas coisas.

Porque eu aprendi a gostar daquela mulher que sou quando perco o controle. Real e corajosa. Que fingiu não ter medo de perder o chão. E que, mesmo saindo partida desse jogo de entrega, se atiraria de novo na frente desse trem descarrilhado que é gostar de alguém.

Por fim, eu te agradeço por muitas coisas, mas principalmente por aquele amor que você não me deixou viver.

Beijos,

Érica.

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domingo

Alguns dias, tenho medo de enlouquecer. Às vezes chego a pensar que estou vendo as coisas se embaralharem na cabeça. Não vem a ser pela falta de sentido, pelo contrário. Costuma ser uma consciência exacerbada de como a vida vai acontecendo. Seu curso, seus caminhos e seus efeitos. Tudo claro e exposto. Lucidez, por vezes, cega.

Viver é muito perigoso. Ando repetindo. Não é morrer que assusta. Viver é onde o negócio pega.

Terminei de ler a reportagem que falava de alguém que nem conheço. Mas senti a sua dor de existir. Ser é uma coisa, por si só, grande demais. A história daquela pessoa me lembrou outra, que ouvi contarem em uma peça de teatro. Distantes nos fatos, mas próximas no sentir. Porque no fim das contas, sentir é tudo como um negócio só, não é não? A dor só muda de endereço.

“Mas as pessoas escolhem viver assim”. Como se viver fosse questão de escolha. A gente vive porque não tem mesmo outra opção. É a única saída. Só que no percurso a gente vai tomando gosto. Vai buscando explicações, vai criando significados e inventa a convicção de que é algo que precisa ser feito. Viver. Até o fim. Aí já não tem mais jeito e a gente chega mesmo a amar a viagem, as nuances, os percalços, as histórias – e conclui que é a opção mais segura.

Sigo pensando na morte. Ou é na vida que penso? Morrer é perceber que a vida é real. E real demais. A morte desvela o que todos os dias esquecemos. Ela nos aproxima da urgência de existir. Nos lembra que há tempo a ser preenchido com nós mesmos.

Penso tudo isso e me despeço de quem precisa ir. Sento e observo o domingo acontecendo pela minha janela. Os medos se esconderam. O ônibus passa e faz menos barulho do que o costume.  Faço planos de ajeitar minha bicicleta durante a semana. Abaixo o volume do som e tiro as roupas do varal em silêncio. Sinto o gosto do primeiro gole de café de uma manhã quase tarde.

Volto a ter devaneios e me alegro com uma página em branco.

Viver é muito perigoso. Que sorte poder contar com os domingos.

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Luli,

Você sabe explicar onde mora? Digo, o que faz da nossa casa o lugar onde moramos? Não me tome como louca ou variante, mas me ocorrem alguns pensamentos confusos sobre esta questão de habitar e ocupar espaços.

Acordei num dia cinza e quase frio aqui no litoral. Você, daí, iria rir quando digo que sinto frio aos 19ºC. Mas finalmente levantei decidida a ajeitar todas essas caixas que já juntavam poeira aqui pelos cantos deste lugar que aprendo a chamar de casa.

Comecei a tirar as almofadas, o tapete de fitas, as canecas que ganhei de presente, os quadros (quantos quadros!). Tudo muito colorido, estou achando. Você também iria rir disso. Vou te mandar uma foto mostrando como ficou e você me conta se está exagerado demais, tá bem?

Enquanto desembrulhava as camadas sem fim de plástico bolha, fiquei matutando umas coisas… Quando me preparava para deixar mais um lar, meio de supetão, as pessoas vieram me falar bonitezas sobre voos e asas e, na época, eu fiquei tentando me lembrar quando eu decidi viver assim: de salto em salto, sem me incomodar com as quedas que eventualmente acontecem. Talvez venha daquele tempo de criança, quando eu caia demais porque não enxergava muito bem e aí fui entendendo que do chão mesmo a gente não passa. E se passar, é por pouco.

Sem me preparar muito eu tirei os pés do chão. E percebi que era impossível embalar as emoções em plástico bolha. Essas estão sempre um tanto desprotegidas.

Assim, voei leve sabendo que deixava em terra todos os corações que cruzaram com o meu. Tenho neles um pouso garantido e é só pela certeza dos retornos que me sinto segura para partir; de novo e de novo.

Mas a medida que peguei velocidade, do alto, no ar, vi que o problema não era só o medo de cair, mas de me perder no espaço. Além de chão para pousar, eu precisava de teto. E também precisava de paredes. Para pendurar tantos quadros e para descansar as costas de vez em quando.

A questão é que todas essas moradas, lares, afetos, abraços e voos fizeram um rebuliço danado aqui dentro de mim. Ficou tudo quase tão bagunçado quanto aquele armário que a gente tinha na sala de jantar, lembra?

A vida ficou suspensa. Tinha voado tanto, que me faltou ar. E me faltaram outros olhos pra olhar, outra pele pra tocar. Um colo pra poder deitar.

Sei que aos poucos fui transformando o próprio peito em lar. Ainda assim, precisei parar e  reconhecer que, às vezes, saio da rota se sigo muito tempo sozinha. Porque sou peixe de cardume. Loba de matilha, pássaro de bando. Sou do tipo de gente que conjuga o verbo no plural.

Pois bem, parece que me alonguei, amigo. Desencaixotar os poucos trapos que acumulei até aqui parece ter surtido um efeito terapêutico. Desculpe-me, tenho andando prolixa nas ideias e isso derrama em meus escritos. Mas a verdade é que comecei a escrever este bilhete, que terminou virando uma carta, porque tinha comprado uma estante nova para colocar meus livros. Ela deve chegar na próxima semana aí neste endereço onde eu já não moro mais. Quero saber se você poderia guardá-la desmontada naquele quarto de trás. Prometo ir buscá-la assim que tiver paredes firmes para (re)pousá-la.

Talvez demore.

Um beijo,

Ana.

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