trem

Eu sabia desde o princípio aonde essa história iria dar. Começou com um chamado sem muito interesse e jogado na madrugada. Mas antes mesmo de você me convidar eu já estava indo. Calada e com poucas certezas, deixei o corpo pender, me guiando.

Aos poucos, fui gostando do alvoroço que fazia por dentro. Gostava de responder às sensações instantâneas, de não entender muito bem para onde o barco levava e de tatear o colchão para lembrar onde acordava em mais uma manhã.

Com você, saí daquela letargia. Despertei do sono profundo dos sentidos, que deixavam só o corpo a mercê dos estímulos. Até hoje, sinto teu gosto nos goles desmedidos de cachaça, cada vez mais espaçados.

Fui ao teu encontro sem pedir recompensas, sem perguntar o que tinha depois da esquina, sem contrato assinado ou comprovante de residência. Só segui, ouvindo o eco das noites. Deixei o sereno me colocar pra dormir, sem procurar por cobertor.

A verdade é que escrevi esta carta pra você em muitas partes. E de muitas formas. Usei lápis e caneta preta em cursos de escrita. Escrevi frases perdidas no canto do caderno. Copiei de livros de poemas. Reorganizei parágrafos desconexos na minha cabeça. Fui compondo passo a passo dessa quase história e, depois, fui misturando com o que batia no peito. Ao longo do tempo, percebi que eram apenas palavras de agradecimento que te endereçava.

Queria te agradecer por muitas coisas.

Porque eu aprendi a gostar daquela mulher que sou quando perco o controle. Real e corajosa. Que fingiu não ter medo de perder o chão. E que, mesmo saindo partida desse jogo de entrega, se atiraria de novo na frente desse trem descarrilhado que é gostar de alguém.

Por fim, eu te agradeço por muitas coisas, mas principalmente por aquele amor que você não me deixou viver.

Beijos,

Érica.

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domingo

Alguns dias, tenho medo de enlouquecer. Às vezes chego a pensar que estou vendo as coisas se embaralharem na cabeça. Não vem a ser pela falta de sentido, pelo contrário. Costuma ser uma consciência exacerbada de como a vida vai acontecendo. Seu curso, seus caminhos e seus efeitos. Tudo claro e exposto. Lucidez, por vezes, cega.

Viver é muito perigoso. Ando repetindo. Não é morrer que assusta. Viver é onde o negócio pega.

Terminei de ler a reportagem que falava de alguém que nem conheço. Mas senti a sua dor de existir. Ser é uma coisa, por si só, grande demais. A história daquela pessoa me lembrou outra, que ouvi contarem em uma peça de teatro. Distantes nos fatos, mas próximas no sentir. Porque no fim das contas, sentir é tudo como um negócio só, não é não? A dor só muda de endereço.

“Mas as pessoas escolhem viver assim”. Como se viver fosse questão de escolha. A gente vive porque não tem mesmo outra opção. É a única saída. Só que no percurso a gente vai tomando gosto. Vai buscando explicações, vai criando significados e inventa a convicção de que é algo que precisa ser feito. Viver. Até o fim. Aí já não tem mais jeito e a gente chega mesmo a amar a viagem, as nuances, os percalços, as histórias – e conclui que é a opção mais segura.

Sigo pensando na morte. Ou é na vida que penso? Morrer é perceber que a vida é real. E real demais. A morte desvela o que todos os dias esquecemos. Ela nos aproxima da urgência de existir. Nos lembra que há tempo a ser preenchido com nós mesmos.

Penso tudo isso e me despeço de quem precisa ir. Sento e observo o domingo acontecendo pela minha janela. Os medos se esconderam. O ônibus passa e faz menos barulho do que o costume.  Faço planos de ajeitar minha bicicleta durante a semana. Abaixo o volume do som e tiro as roupas do varal em silêncio. Sinto o gosto do primeiro gole de café de uma manhã quase tarde.

Volto a ter devaneios e me alegro com uma página em branco.

Viver é muito perigoso. Que sorte poder contar com os domingos.

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foto do pinterest

estante

Luli,

Você sabe explicar onde mora? Digo, o que faz da nossa casa o lugar onde moramos? Não me tome como louca ou variante, mas me ocorrem alguns pensamentos confusos sobre esta questão de habitar e ocupar espaços.

Acordei num dia cinza e quase frio aqui no litoral. Você, daí, iria rir quando digo que sinto frio aos 19ºC. Mas finalmente levantei decidida a ajeitar todas essas caixas que já juntavam poeira aqui pelos cantos deste lugar que aprendo a chamar de casa.

Comecei a tirar as almofadas, o tapete de fitas, as canecas que ganhei de presente, os quadros (quantos quadros!). Tudo muito colorido, estou achando. Você também iria rir disso. Vou te mandar uma foto mostrando como ficou e você me conta se está exagerado demais, tá bem?

Enquanto desembrulhava as camadas sem fim de plástico bolha, fiquei matutando umas coisas… Quando me preparava para deixar mais um lar, meio de supetão, as pessoas vieram me falar bonitezas sobre voos e asas e, na época, eu fiquei tentando me lembrar quando eu decidi viver assim: de salto em salto, sem me incomodar com as quedas que eventualmente acontecem. Talvez venha daquele tempo de criança, quando eu caia demais porque não enxergava muito bem e aí fui entendendo que do chão mesmo a gente não passa. E se passar, é por pouco.

Sem me preparar muito eu tirei os pés do chão. E percebi que era impossível embalar as emoções em plástico bolha. Essas estão sempre um tanto desprotegidas.

Assim, voei leve sabendo que deixava em terra todos os corações que cruzaram com o meu. Tenho neles um pouso garantido e é só pela certeza dos retornos que me sinto segura para partir; de novo e de novo.

Mas a medida que peguei velocidade, do alto, no ar, vi que o problema não era só o medo de cair, mas de me perder no espaço. Além de chão para pousar, eu precisava de teto. E também precisava de paredes. Para pendurar tantos quadros e para descansar as costas de vez em quando.

A questão é que todas essas moradas, lares, afetos, abraços e voos fizeram um rebuliço danado aqui dentro de mim. Ficou tudo quase tão bagunçado quanto aquele armário que a gente tinha na sala de jantar, lembra?

A vida ficou suspensa. Tinha voado tanto, que me faltou ar. E me faltaram outros olhos pra olhar, outra pele pra tocar. Um colo pra poder deitar.

Sei que aos poucos fui transformando o próprio peito em lar. Ainda assim, precisei parar e  reconhecer que, às vezes, saio da rota se sigo muito tempo sozinha. Porque sou peixe de cardume. Loba de matilha, pássaro de bando. Sou do tipo de gente que conjuga o verbo no plural.

Pois bem, parece que me alonguei, amigo. Desencaixotar os poucos trapos que acumulei até aqui parece ter surtido um efeito terapêutico. Desculpe-me, tenho andando prolixa nas ideias e isso derrama em meus escritos. Mas a verdade é que comecei a escrever este bilhete, que terminou virando uma carta, porque tinha comprado uma estante nova para colocar meus livros. Ela deve chegar na próxima semana aí neste endereço onde eu já não moro mais. Quero saber se você poderia guardá-la desmontada naquele quarto de trás. Prometo ir buscá-la assim que tiver paredes firmes para (re)pousá-la.

Talvez demore.

Um beijo,

Ana.

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madrugada

É como se fosse carnaval e seus olhares tivessem se cruzado meio sem querer quando alguém gritou ”ó o pesado” tentando passar no meio da multidão com um saco de gelo de 12 quilos na cabeça. Mas aí veio uma tumba e os olhinhos se perderam; e tudo bem porque quem eram vocês um pro outro até ali, afinal. No outro bloco, um pouco mais na frente, vocês se esbarraram de novo naquela disputa pela latinha pela cerveja menos quente do isopor. Reconheceram os olhares e sorriram. Acabaram tomando uísque. Bastou pouco para que no lusco-fusco de outros reencontros e troças, vocês estivessem dividindo gracejos com mais umidade.

Nem tão de repente, a festa acabou, a luz apagou, o carnaval passou, as lantejoulas da saia se misturaram com o resto de cerveja quente no meio fio e, ainda assim, o festejo de vocês continuou. No olhar de cada um, entrou uma purpurina tipo um cisco que não queria mais sair. As coisas passaram a brilhar sozinhas e era bem o brilho grudado da íris que iluminava.

Passou o baile e vocês seguiram até o dia em que dançaram aquela música de Gal no banheiro, às sete horas da manhã, de toalha, antes do trabalho. E tomaram um susto! Quais caminhos tinham tomado até chegar ali?

Quase como investigação, abriram um mapa no peito, tentando ligar a cabeça com outros sentidos e traçaram percursos errantes e tortos, meio molhados de chuva e lágrima. Parecia mesmo um mistério.

Mas sabiam que o querer bem, por si, não tinha nada de mágico. E nem é místico ou cabe em um jogo de tarot. Seria fácil dizer que foi destino. Preferiram não.

Na busca, os enigmas se dissolviam ainda de madrugada. Quando um dos dois acordava entorpecido de sono e lembrava da outra existência bem ali do lado. E passava a mão procurando um corpo quente. E aí se percebiam e tanto fazia se sonhavam em preto e branco ou colorido.

Descobriram, por fim, que a beleza dos encontros fortuitos e daqueles olhos que se cruzaram no carnaval (ou dentro do ônibus, ou na manifestação contra as reformas ou mesmo naquele bar em Belém) estava em não esconder as fraquezas do sentir.

A doçura, o terno e a vontade de mimar você nas quatro estações vinham do oposto. Era preciso escancarar o fato de que tudo aquilo podia ir embora como veio, com álcool ou na correnteza fraca do rio.

Pode ir, mas também pode ir ficando. Sem pressa, sem aperreio e com gosto de mamão com café com leite pela manhã.

Porque só cai de amor quem anda distraído o suficiente para tropeçar em outros corações. E só repousa nele quem se dispõe a sangrar.

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Hallie Bateman

faz frio

Numa praça em São Paulo, nas primeiras horas da manhã, a água bate na pele como fagulha de tiro. Dói e espanta. A noite foi fria, a manhã segue gelada. E funcionários da prefeitura obedecem a ordem de acordar as pessoas que ali dormiam com disparos de falta de humanidade.

Em outro local, outras pessoas que têm o céu como teto se aglomeram pra tentar se aquecer. Ouvi no rádio a moça dizer que é mais difícil moradores de rua que estão em grupo sucumbirem ao inverno. Trocam cobertas, oferecem goles do que bebem e aprendem a se esquentar. Sozinhos, morrem. Juntos, compartilham da humanidade que carregam mesmo sem saber.

De frio e de tiro, matamos e morremos. Mas quando somos coletivos e partilhamos do existir, sobrevivemos às mais extremas temperaturas. E com sorte, criamos coisas lindas no caminho.

 

(postado no facebook em 19 de julho de 2017)

correio elegante

Voltando pra casa, passei por uma mulher que ralava coco na calçada. Perguntei e ela me disse que iria fazer uma fazer canjica pra comer à noite.

O São João se aproxima e eu sinto que é hora de te deixar. Não sei se estou pronta, mas talvez eu nunca esteja. E não dá para entrar em outra estação levando a mesma muda de roupas.

De certa forma, me despedir de você é também deixar ir um pouco do que você me fez sentir. Um calor no peito, uma agitação nas entranhas e aquela vontade de cantarolar que não dá pra esconder o que eu sinto por você, ará, no meio do expediente.

Você foi uma faísca de verão e me encontrou pegando fogo. Me pegou no ritmo de frevo, suada e com cheiro de cigarro e cerveja. E, úmidos, nos misturamos até ficar quente demais.

Agora, o inverno está chegando e eu vou aproveitar pra fazer uma fogueira com as nossas lembranças. Elas vão servir pra me aquecer. O que um dia já foi chama, se prepara para virar cinzas.

Quase como um ritual, guardo os vestidos de algodão na última gaveta. Vou trocar o peso do teu corpo pelo de um casaco qualquer. Troco também a purpurina dos olhos pelas bandeirinhas de papel que penduro na sala. Porque muda o tempo lá fora e as cores não vão embora. Isso você não vai levar.

Lembro de novo do São João e coloco Dominguinhos para tocar na cozinha. Nem espero a música terminar, saio de casa e compro milho fresco. Enquanto o bolo assa no forno, vejo você indo embora de mim. Ou pelo menos se escondendo com os tecidos floridos naquela gaveta. Então, planejo tua festa de despedida. Com pamonha, quentão e correio elegante.

E mal posso esperar a hora da quadrilha. Mesmo sabendo que, dançando em qualquer braço, vou fechar os olhos sentindo teu embalo.

brun

imagem do pinterest

demorar

Corre, eles dizem. Acelera. Não perde tempo. Otimiza e faz. Logo!

A cidade onde eu aprendi a parar para escutar o som que vinha de dentro agora me pede velocidade. O lugar onde eu quis tempo para ter tempo, agora me diz que quatro horas é tempo demais para descansar à noite, depois de um longo dia de trabalho.

Eu sento no domingo para escrever o meu projeto de conclusão de curso sobre cidades mais humanas e menos motorizadas e me deparo com a manchete dos jornais que diz: voltamos a matar pessoas nas marginais. Marginais.

Querem nos convencer que morremos por imprudência. Ou por sermos nós os marginais. Mas não morremos: estamos sendo mortos, aos poucos, por essa mania de correr. Por esse hábito de achar que gente é número. Por quem acredita que se governa unicamente por meta e indicador.

Pela primeira vez, desde que pousei aqui neste lugar maluco, me sinto sufocada. Lamento ter que dizer, São Paulo, mas estamos em crise. Sei que é muito culpa minha, que ando absorta nos meus devaneios, problemas e martírios pessoais. Que vivo aquele momento de troca de peles e por isso precisei me eclipsar. Ando de cabeça baixa, mas é pra ver se escuto melhor meu coração.

Mas também tu, minha sina, tens me deixado enlouquecida com tantas exigências. Deixei de fazer as coisas por prazer, pois todas elas viraram obrigações. Tudo é ”tenho que”, tudo é ”eu preciso”. Nada é eu quero, eu gosto. Tudo é pressa, nada mais descansa.

Sinto-me desconectada de ti e, por consequência, também de mim. Minha morada agora está suspensa e sinto um vazio embaixo dos pés. Procuro a música que tocava aqui dentro e, de longe, só ouço o barulho da cidade que me acorda antes do amanhecer, pois já é tarde e é preciso levantar para produzir. Não vivo mais, apenas continuo mecanicamente a repetir meus vícios.

Você me abandonou, parceira, naquele trato que a gente fez. Atravesso a rua sem olhar para os lados e já não tenho mais certeza se vou chegar com vida na outra calçada. Quando eu mais preciso de ti, não encontro repouso.

Ainda assim, eu sigo. Já te confiei meus sonhos e não tem mais para onde correr. Aliás, correr não é mais opção, tá bem? Agora me escuta, já deu. Eu vou voltar a deitar no teu colo e vou me demorar aqui. Sem hora, sem pressa. Sei que também estás precisando de cuidados e te ofereço um respiro. Você vai ver, com o tempo, ainda vamos rir disso tudo. Ah vamos, sim, voltar a sorrir.

Por sorte, eu levo no peito doses extras de mar e amor e, a cada dia, vou derramando um bocadinho deles em nós. E assim, salgadas e vagarosas, a gente se cura dessa dor.

 

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imagem do pinterest. autoria desconhecida.