a noite no deserto

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Depois de um jantar delicioso e uma roda de tambores, decidimos ir olhar as estrelas. Não é todo dia que você pode ver o céu daquele jeito.

Há quilômetros de qualquer ponto de luz, o céu é um novo mundo.

Nós estavamos no Deserto do Saara.
Foi um dia inteiro de viagem de van, algumas caminhadas por cidades históricas e quase três horas de camelo.
Mas não dava para dizer não às estrelas. Não àquelas.
Eu, Betty, Mohamed e Samir deitamos na areia. Mohamed e Samir eram beduínos. Moravam ali mesmo no deserto e trabalhavam como guias turísticos.
A areia era gelada e fininha. Era gostoso pegar um punhado e esperar os grãos escorrerem aos poucos por entre os dedos.
 .
– Aqui não tem cobra não, ne? eu disse
Mohamed achou graça da minha preocupação.
– E se tiver? provocou
Eu ri de volta, fingindo tranquilidade.
As barreiras linguísticas eram muitas, mas dava para se entender. O francês malamanhado dos dois lados conseguia quebrar o galho.
Cavamos buracos para colocar os pés. Lá dentro, a areia era quente. Mesmo à noite, o sol do deserto se mostrava da maneira que podia.
Falamos amenidades. Sobre morar no deserto, sobre morar na cidade. Sobre ser guia turistíco, sobre outras profissões.
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– Jornalistas adoram vir aqui fazer perguntas. Os franceses também, mesmo sem serem jornalistas adoram perguntar.
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Mohamed falava e ria. Falava e ria.
Sua ingenuidade lembrava aquele menininho que um dia foi parar no deserto e ensinou a um homem grande o poder das estrelas.
– Sabe uma música que eu adoro? Waka waka êê, tsamina êê.. Vocês sabem. Canta comigo. “This is my africa”.
Mohamed tinha essa capacidade. De unir norte e sul, oriente e ocidente, o deserto e a metrópole. Na simplicidade do ser, que só é e pronto. Sem se importar demais com os detalhes da língua, com o francês capenga, com as diferenças. Mohamed me fez perceber, no meio daquela escuridão, que estamos todos debaixo do mesmo céu. Mostrou que a gente é que nem a areia do deserto: por mais frio que a gente esteja por fora, dentro vai estar sempre quente, como testemunha de que o sol já aqueceu, um dia, o nosso coração.
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– Essa é a primeira vez que vocês vêm pra o deserto?
– É.
– Mas não vai ser a última, né?
– Espero que não.
– Promete pra mim que vocês voltam e vocês vão ter que voltar.
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A promessa foi feita e um dia eu sei que volto. Enquanto isso, eu olho as estrelas e sorrio com elas.

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