ando devagar porque já tive pressa

Algo terrível está acontecendo em São Paulo. Querem que a gente desacelere, pise no freio e não ultrapasse, de jeito nenhum, os 50 quilômetros por hora.

Logo a cidade que não dorme, a selva de pedras brasileira, onde time is money e tá todo mundo sempre correndo para não chegar atrasado. Onde ao invés de ”bom dia” e ”boa noite”, as pessoas falam ”bom serviço” e ”bom descanso”. Pode desacelerar?

Há algum tempo venho mudando meu jeito de ver a cidade e o jeito como me comporto nela. Era heavy user de carro no Recife, até perceber como aquilo me deixava estressada. Trabalhava há uns 12km de distância da minha casa e tinha dias que demorava quase duas horas na volta, no horário de pico.

Lembro quando a prefeitura diminuiu a velocidade máxima do centro histórico da cidade para 30km/h e isso chocou todo mundo. Comassim, 30, minha gente? Isso é quase uma caminhada, o trânsito vai parar, o mundo vai a-ca-bar.

Quando a primeira via expressa do Recife inaugurou com velocidade máxima permitida de 60km/h, confesso que até eu reclamei. Não fazia sentido, era uma via expressa, deixa eu correr!

Aos poucos, comecei a me locomover a pé quando a distância era menor que 4 quilômetros. Parece pouco mas em Recife você passa por uns três bairros. Comecei a entender que eu não precisava correr tanto. Descobri árvores, lojinhas, cafés. E também me senti mais próxima dos problemas da cidade, via o esgoto entupido e encarava calçadas esburacadas. A cidade me pertencia um pouco mais.

Devagar, a gente aprende a ver na escala humana. A olhar nos olhos ao invés e não para os faróis.

Em agosto, fui passar uma semana lá na terrinha e fiz quase todos os deslocamentos necessários a pé. Quando precisei do carro, fiz o teste de nunca ultrapassar os 50km/h, mesmo quando permitido. E em ruas pequenas, tentei ficar sempre entre 30 e 40km/h. Não cheguei atrasada em lugar nenhum e vivi de verdade os meus deslocamentos. Também peguei a bicicleta com o namorado para fazer um passeio e comprar presentes do dia dos pais em um dia sem ciclofaixa e percebi como carros são agressivos, barulhentos e exagerados. Mas quem tá dentro dele nem nota. Aumenta a música, acelera.

Aliás, nesta semana, percebi como as pessoas correm à toa. Estão sempre no futuro, já pensando onde vão estacionar, que precisam passar naquele sinal amarelo antes que feche, que estão na quarta mas só pensam na sexta. Devagar, a gente também entende que as horas podem ter muitos mais minutos aproveitados.

Ah, Júlia, mas então você não vai mais dirigir, sua hipócrita? De jeito nenhum! Às vezes até tenho saudade do meu carro, mas apenas para usá-lo como armário. Meu dia começa cedo, acaba tarde e tem pelos uns três turnos de atividades. Levo casaco extra, lancheira, caderno, livro pra ler em filas.. Seria ótimo não carregar isso tudo na mochila diariamente, poder acordar mais tarde e sair de casa em cima da hora, viajar no fim de semana. Mas quando alguém chega pra mim e diz: ”Você é de Recife? Abandonou aquele paraíso para viver nessa loucura?”. Eu respondo sorrindo: aqui tenho muito mais qualidade de vida, pois a cidade me deu a possibilidade de viver sem um carro. E eu estou muito feliz que minhas cidades queridas estejam adotando esses limites de velocidade.

É como diz a música de Almir Sater, título deste post. Estou tentando andar devagar e com um sorriso no rosto, cada vez mais. De correria e de choro a vida já está cheia. Aproveita esse absurdo que as prefeituras estão fazendo e desacelera. Tu vai ver que 50km/h já é rápido até demais.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s