for no one, finalmente

Você ouviu For No One no fim do primeiro namoro. Na Voz de Caetano Veloso, a música entrava em você como uma faca de plástico daquelas bem cegas tentando cortar um pedaço de pizza duro e gelado. Nada poético. Só dor. Àquela altura, você sabia que nada daquilo era verdade. Só aquela parte do amor que should have lasted years. O resto da letra, que grande enganação. Você precisava dele, sim. No sign of love behind the tears? Que balela! Cada lágrima era repleta de amor. Eram mililitros inteiros de afeto, apego, saudade. Escorriam pela bochecha e chegavam ao lábio, até você lamber tudo aquilo, tentando engolir de volta cada parte de vocês.

A música continuou a tocar. No mp3 mambembe que você tinha, no som do carro, no computador. Não importava se era entoada por todos os Beatles, por Paulo Mccartney ou, a mais recorrente, por Caetano. Ela nunca te abandonou. Your day breaks, your mind aches.

Ela acompanhou a tua primeira fossa como uma amiga inseparável. Em alguns momentos, você chegou a acreditar nela. Você dizia que ela havia sido escrita para você. Hoje, você sabe, era da boca pra fora.

Você ouviu For No One quando aquele cara que você curtia se fez de doido e parou de responder teus inbox. E também quando aquele outro respondeu tuas mensagens efusivas com um ”heheheh”. De manhã, você chegou a passar rímel para ir trabalhar com a danada da música no volume mais alto. Mesmo não usando maquiagem com frequência, você sabia que só um rímel era capaz de reconstruir a sua auto-estima que se encontrava jogada lá com a calcinha melada de sangue no cesto de roupa suja. Afinal: she wakes up, she makes up.

E assim foi seguindo. O segundo namorou passou. Os rolos também passaram. Só a música continuou. Você ouviu deitada no quarto. Você ouviu depois de umas cervejas e de uns erros cometidos. Você ouviu enquanto esfregava o pedaço de algodão com hidratante nos olhos, porque mais uma vez não comprou demaquilante. Você ouviu em festas, fechando os olhos e falando eeeita. Você também ouviu quando teu ex mudou o status nas redes sociais. Pra que mentir? She no longer needs you… Será?

Até que, um dia, você escutou For No One no metrô. Na real, você queria ouvir Qualquer Coisa e acabou colocando o álbum inteiro. Você, então, passou de esse papo seu já tá de manhã para your day breaks, your mind aches. Mais uma vez. E mais uma vez, os versos foram aparecendo e as lágrimas brotando. Mas essas não eram as mesmas de sempre. Essas lágrimas não eram pra ninguém. Cried for no one. Finalmente.

Quantas vezes você precisou ouvir For No One até o dia em que fosse de fato verdade?

She takes her time and doesn’t feel she has to hurry. Você já não tem pressa. Você acordou cedo, não teve tempo de ir na academia e fez umas flexões no tapete. Foi andando para a terapia e depois aproveitou para buscar uma encomenda ali no bairro. Não precisou de rímel. Era cedo, pra que pressa? Parou para tomar um café, sorriu para todo mundo que passou no teu caminho da forma mais sincera e terminou o texto da revista sobre velhice. As peças se encaixaram.

Você está aprendendo o que realmente é amor. E que tudo tem seu tempo. She takes her time. A vida também. Deixa ir, deixa vir. Agora é outra música que começou a tocar. É ridícula, mas let it go.

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