quando ou onde

Eu cheguei em São Paulo no verão. Estava há apenas dois dias na cidade quando os termômetros marcaram o recorde de temperatura dos últimos 10 anos. Algo perto dos 37 graus celsius. O juízo queimava enquanto o cheiro de asfalto subia.  

Com duas semanas de essepê, eu já me sentia completamente confortável no meio de tanta loucura. Ladrava por aí que estava adaptada, quanta audácia. Com gosto, fui aprendendo o nome de ruas e identificando caminhos metafóricos e literais que desejava seguir. Graças ao ofício de repórter, pude conhecer rapidinho os cantos e encantos da cidade. Entendi o mapa e termos como Zona Leste e Zona Show começaram a fazer sentido. Percorri os distritos sem medo de me perder. Foi para isso que tinha vindo: para me perder.

Enquanto muita gente sai de casa querendo se achar, o meu desejo era mesmo sair um pouco do trilho. 

E assim fui indo, descarrilhada. Fui conhecendo tudo a cada passo, a cada tropeção, a cada queda. Eu entrei na cidade e ela entrou em mim.

Nem sempre foi fácil. São Paulo também foi dura. Aos poucos, fui me vendo engolida pela rotina. Saí de casa à seis da manhã e voltei quase meia noite, com uma agenda interminável de afazeres. As obrigações eram tão sufocantes quanto aquele dia quente de verão em plena Avenida Paulista. Também comecei a me incomodar em ter que repetir a mesma frase várias vezes para as pessoas entenderem meu sotaque. Cansei de fingir sorriso amarelo nas situações de preconceito velado. Senti falta de rostos conhecidos. 

A chegada do primeiro inverno foi cruel. A aspereza das pessoas pareceu transparecer. A arquitetura passou a me deixar miudinha. Todo o conforto dos primeiros meses tinha ido embora com o calor. A saudade apertou, as canelas gelaram. Mas assim como veio, ele se foi. Passou.

O segundo inverno, apesar de mais frio, foi mais brando e complacente comigo. Parece que eu aprendi a me aquecer. Aprendi também a desacelerar. A pegar menos metrô e a usar o corpo como transporte. Aprendi a pedir carinho quando precisava. Aprendi a dar abraços. Aprendi a apreciar o vento no rosto, ao invés de abaixar a cabeça para ele.

No fim das contas, São Paulo foi onde eu aprendi a colocar a cara no mundo. Onde me vi, tantas vezes, como minha única companhia. Foi onde eu comecei a gostar de me encontrar e não só de me perder. E foi aí que o negócio ficou gostoso. Porque além das ruas e zonas e distritos, eu percebi que eu também conhecia, a cada passo, o meu próprio mapa. 

Essepê foi onde eu descobri o mergulho delicioso que a gente pode e deve tomar dentro de si pra se refrescar antes de voltar à superfície. Ou eu deveria dizer “foi quando”? Não sei ao certo que advérbio usar. Aqui, em mim e na cidade, quando e onde se confundem. 

Da praia, eu tenho saudade todos os dias. Dos amigos, dos amores, dos amantes, dos afetos também. Da poesia do entardecer recifense, do jeitinho do meu povo falar. De queijo coalho, de sururu. Das ruas planas e da umidade. Da sensação de fazer parte de alguma coisa, ainda que eu não saiba o quê.

Mas, hoje, quando passo pelo viaduto do Sumaré e vejo os prédios se misturando ao ipês coloridos, eu também sinto que faço parte de alguma coisa. E talvez eu saiba do quê. Aquela vista é meu mar e nele eu tenho entrado sem medo de ser levada pelas ondas. 

Porque Recife vai ser sempre a minha terra, mas São Paulo é onde eu estou aprendendo a navegar.

Obrigada ❤

img_0507

imagem do pinterest

2 thoughts on “quando ou onde

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