cicatrizes

É difícil admitir-se frágil. É foda dizer que dói.

Na maior parte do tempo, a gente se mantém ali, quase firme, enraizada na coragem que inventamos depois de todas as outras quedas. Na certeza de que levantar sempre foi uma opção. De que nunca tivemos vocação para o fundo do poço. 

Quantas vezes a gente não envergou que nem pau de bananeira, até encostar as pontas, e não quebrou? Levanta pra cair de novo. Tá pronta pra outra. Mar calmo nunca fez bom marinheiro. Balança, mas não cai.

Até que um dia a gente se depara com o impacto. Tij. Tei. Pam. A gente quebra, sim. A gente dói, sim. 

Se jogar é gostoso, mas tem seus perigos. Na poesia fica bonito. Vai lá, te atira, mulher! Desce a ladeira com o vento nos cabelos. Sente a adrenalina de ir caindo, seguindo, avançando e observando o que vai ficando pra trás. Fala o que tu quer. Coragem. Vai pra cima. Tu é mais. Arrisca. Abre os braços. O peito junto.

Só que na vida real, o asfalto tá logo ali. E ele arranha, rasga, machuca e sangra a o corpo.

Tem tapa na cara que arde mais. Tem soco no estômago que te tira o ar por mais que alguns segundos. Tem topada que arranca o dedo inteiro. Tem pessoa que vai embora e leva com ela um pedaço da gente. Tem porta que fecha e não abre mais.

Quando a corda arrebenta, não tem equilibrista que se segure. Não tem rede de proteção que sustente. É queda livre e agora já foi. Ninguém está seguro, afinal de contas.

E tem fratura que, pra sarar, tem que ficar exposta. Não abafa, não bota gaze, não assopra, tira o gesso.

Estar vivo é ser vulnerável.

É permitir partir-se. Ou só partir.

É doer até não saber se vem de dentro ou de fora. Se foi pancada ou amor.

É chorar até perceber que sangrar não é o problema. Nem nem sofrer, nem arder, nem romper.

Tem hora que chega!  É preciso sentir que a pele não regenera igual. Aceita: a ferida já é tua. Está virando cicatriz. Pra sempre ali, mesmo que imperceptível a olho nu.

A vida é sobre essas marcas. Não se trata, porém, de colecioná-las.

As cicatrizes existem apenas como testemunhas de toda aquelas vezes em que a gente engoliu os riscos e disse sim pra vida.

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