em trânsito

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São muitas noites, madrugadas, raios de sol, nuvens, estrelas e horas que passei assim. Olhando dessas janelinhas pra uma imensidão. A de dentro e a de fora.

Você não cansa? Às vezes sim. Eu acho que canso. De gastar um dinheiro que nem tenho, de me estressar no trânsito indo para o aeroporto achando que vou perder o voo, de fazer as malas, de desfazê-las.

Ai, as malas. Nelas, não carrego só roupas e livros. Isso é o de menos. Fazer e desfazer sensações abraços, trocas, experiências… Quase sempre é preciso se livrar do peso para não pagar excesso. Quando se vive em fronteiras, é preciso escolher a dedo o que levamos, principalmente no coração.

Eu reclamo desse deslocamento até mais do que eu gostaria. Resmungo, faço muxoxo. Queria teletransportar. Ai que saco. Mas aí, quando já estou no ar, tudo começa a passar e dissolver feito fumaça. E basta chegar em algum dos destinos, que eu me transformo.

Eu chego em uma de minhas casas e meu peito enche de alegria, de umidade, de sal, de farra, de chamego, de toque, de história. Eu brinco de fazer presente com o que parece passado.

Eu pouso na outra casa eu tenho o novo, a liberdade, os sorrisos, as cumplicidades, o trabalho, as descobertas. Eu fico inventando o agora com o que tem cheiro de futuro. 

É um ir e vir sem fim, mas que já me faz parte. Por tempos quis negá-lo. Achei que precisava admitir um lado só dessa história. Preciso?

Às vezes a gente queria ser que nem sol, que amanhece em todas as manhãs. Não dá. Mas não tinha uma palavra em um livro que falava sobre aqueles que vivem entre dois mundos? E dois mundos são muitas coisas. Porque viver na fronteira é deixar a porta aberta, para entrar ou para sair.

Está enganado que pensa que andar em cima do muro é sinal de fraqueza. Para ser equilibrista é preciso pisar firme. Olhar em um ponto fixo, seguir, concentrar e, acima de tudo, aceitar o balanço.

É que nem barco sem motor. Que sobe e desce com o movimento da maré, chega a parecer sem rumo ou à deriva, mas sabe direitinho onde atracar. E em cada porto, descobre um amor.

Essa sou eu. Uma vida em trânsito.

Um coração, duas moradas

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