demorar

Corre, eles dizem. Acelera. Não perde tempo. Otimiza e faz. Logo!

A cidade onde eu aprendi a parar para escutar o som que vinha de dentro agora me pede velocidade. O lugar onde eu quis tempo para ter tempo, agora me diz que quatro horas é tempo demais para descansar à noite, depois de um longo dia de trabalho.

Eu sento no domingo para escrever o meu projeto de conclusão de curso sobre cidades mais humanas e menos motorizadas e me deparo com a manchete dos jornais que diz: voltamos a matar pessoas nas marginais. Marginais.

Querem nos convencer que morremos por imprudência. Ou por sermos nós os marginais. Mas não morremos: estamos sendo mortos, aos poucos, por essa mania de correr. Por esse hábito de achar que gente é número. Por quem acredita que se governa unicamente por meta e indicador.

Pela primeira vez, desde que pousei aqui neste lugar maluco, me sinto sufocada. Lamento ter que dizer, São Paulo, mas estamos em crise. Sei que é muito culpa minha, que ando absorta nos meus devaneios, problemas e martírios pessoais. Que vivo aquele momento de troca de peles e por isso precisei me eclipsar. Ando de cabeça baixa, mas é pra ver se escuto melhor meu coração.

Mas também tu, minha sina, tens me deixado enlouquecida com tantas exigências. Deixei de fazer as coisas por prazer, pois todas elas viraram obrigações. Tudo é ”tenho que”, tudo é ”eu preciso”. Nada é eu quero, eu gosto. Tudo é pressa, nada mais descansa.

Sinto-me desconectada de ti e, por consequência, também de mim. Minha morada agora está suspensa e sinto um vazio embaixo dos pés. Procuro a música que tocava aqui dentro e, de longe, só ouço o barulho da cidade que me acorda antes do amanhecer, pois já é tarde e é preciso levantar para produzir. Não vivo mais, apenas continuo mecanicamente a repetir meus vícios.

Você me abandonou, parceira, naquele trato que a gente fez. Atravesso a rua sem olhar para os lados e já não tenho mais certeza se vou chegar com vida na outra calçada. Quando eu mais preciso de ti, não encontro repouso.

Ainda assim, eu sigo. Já te confiei meus sonhos e não tem mais para onde correr. Aliás, correr não é mais opção, tá bem? Agora me escuta, já deu. Eu vou voltar a deitar no teu colo e vou me demorar aqui. Sem hora, sem pressa. Sei que também estás precisando de cuidados e te ofereço um respiro. Você vai ver, com o tempo, ainda vamos rir disso tudo. Ah vamos, sim, voltar a sorrir.

Por sorte, eu levo no peito doses extras de mar e amor e, a cada dia, vou derramando um bocadinho deles em nós. E assim, salgadas e vagarosas, a gente se cura dessa dor.

 

IMG_8080

imagem do pinterest. autoria desconhecida.

 

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