madrugada

É como se fosse carnaval e seus olhares tivessem se cruzado meio sem querer quando alguém gritou ”ó o pesado” tentando passar no meio da multidão com um saco de gelo de 12 quilos na cabeça. Mas aí veio uma tumba e os olhinhos se perderam; e tudo bem porque quem eram vocês um pro outro até ali, afinal. No outro bloco, um pouco mais na frente, vocês se esbarraram de novo naquela disputa pela latinha pela cerveja menos quente do isopor. Reconheceram os olhares e sorriram. Acabaram tomando uísque. Bastou pouco para que no lusco-fusco de outros reencontros e troças, vocês estivessem dividindo gracejos com mais umidade.

Nem tão de repente, a festa acabou, a luz apagou, o carnaval passou, as lantejoulas da saia se misturaram com o resto de cerveja quente no meio fio e, ainda assim, o festejo de vocês continuou. No olhar de cada um, entrou uma purpurina tipo um cisco que não queria mais sair. As coisas passaram a brilhar sozinhas e era bem o brilho grudado da íris que iluminava.

Passou o baile e vocês seguiram até o dia em que dançaram aquela música de Gal no banheiro, às sete horas da manhã, de toalha, antes do trabalho. E tomaram um susto! Quais caminhos tinham tomado até chegar ali?

Quase como investigação, abriram um mapa no peito, tentando ligar a cabeça com outros sentidos e traçaram percursos errantes e tortos, meio molhados de chuva e lágrima. Parecia mesmo um mistério.

Mas sabiam que o querer bem, por si, não tinha nada de mágico. E nem é místico ou cabe em um jogo de tarot. Seria fácil dizer que foi destino. Preferiram não.

Na busca, os enigmas se dissolviam ainda de madrugada. Quando um dos dois acordava entorpecido de sono e lembrava da outra existência bem ali do lado. E passava a mão procurando um corpo quente. E aí se percebiam e tanto fazia se sonhavam em preto e branco ou colorido.

Descobriram, por fim, que a beleza dos encontros fortuitos e daqueles olhos que se cruzaram no carnaval (ou dentro do ônibus, ou na manifestação contra as reformas ou mesmo naquele bar em Belém) estava em não esconder as fraquezas do sentir.

A doçura, o terno e a vontade de mimar você nas quatro estações vinham do oposto. Era preciso escancarar o fato de que tudo aquilo podia ir embora como veio, com álcool ou na correnteza fraca do rio.

Pode ir, mas também pode ir ficando. Sem pressa, sem aperreio e com gosto de mamão com café com leite pela manhã.

Porque só cai de amor quem anda distraído o suficiente para tropeçar em outros corações. E só repousa nele quem se dispõe a sangrar.

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Hallie Bateman

4 thoughts on “madrugada

  1. V. says:

    Menina danada, bonita e corajosa. Parece saber bem como entrar no coração, na emoção, na alma da gente. Lindo! Cada escrita é como um raio de sol iluminando os escuros de todos nós.

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