estante

Luli,

Você sabe explicar onde mora? Digo, o que faz da nossa casa o lugar onde moramos? Não me tome como louca ou variante, mas me ocorrem alguns pensamentos confusos sobre esta questão de habitar e ocupar espaços.

Acordei num dia cinza e quase frio aqui no litoral. Você, daí, iria rir quando digo que sinto frio aos 19ºC. Mas finalmente levantei decidida a ajeitar todas essas caixas que já juntavam poeira aqui pelos cantos deste lugar que aprendo a chamar de casa.

Comecei a tirar as almofadas, o tapete de fitas, as canecas que ganhei de presente, os quadros (quantos quadros!). Tudo muito colorido, estou achando. Você também iria rir disso. Vou te mandar uma foto mostrando como ficou e você me conta se está exagerado demais, tá bem?

Enquanto desembrulhava as camadas sem fim de plástico bolha, fiquei matutando umas coisas… Quando me preparava para deixar mais um lar, meio de supetão, as pessoas vieram me falar bonitezas sobre voos e asas e, na época, eu fiquei tentando me lembrar quando eu decidi viver assim: de salto em salto, sem me incomodar com as quedas que eventualmente acontecem. Talvez venha daquele tempo de criança, quando eu caia demais porque não enxergava muito bem e aí fui entendendo que do chão mesmo a gente não passa. E se passar, é por pouco.

Sem me preparar muito eu tirei os pés do chão. E percebi que era impossível embalar as emoções em plástico bolha. Essas estão sempre um tanto desprotegidas.

Assim, voei leve sabendo que deixava em terra todos os corações que cruzaram com o meu. Tenho neles um pouso garantido e é só pela certeza dos retornos que me sinto segura para partir; de novo e de novo.

Mas a medida que peguei velocidade, do alto, no ar, vi que o problema não era só o medo de cair, mas de me perder no espaço. Além de chão para pousar, eu precisava de teto. E também precisava de paredes. Para pendurar tantos quadros e para descansar as costas de vez em quando.

A questão é que todas essas moradas, lares, afetos, abraços e voos fizeram um rebuliço danado aqui dentro de mim. Ficou tudo quase tão bagunçado quanto aquele armário que a gente tinha na sala de jantar, lembra?

A vida ficou suspensa. Tinha voado tanto, que me faltou ar. E me faltaram outros olhos pra olhar, outra pele pra tocar. Um colo pra poder deitar.

Sei que aos poucos fui transformando o próprio peito em lar. Ainda assim, precisei parar e  reconhecer que, às vezes, saio da rota se sigo muito tempo sozinha. Porque sou peixe de cardume. Loba de matilha, pássaro de bando. Sou do tipo de gente que conjuga o verbo no plural.

Pois bem, parece que me alonguei, amigo. Desencaixotar os poucos trapos que acumulei até aqui parece ter surtido um efeito terapêutico. Desculpe-me, tenho andando prolixa nas ideias e isso derrama em meus escritos. Mas a verdade é que comecei a escrever este bilhete, que terminou virando uma carta, porque tinha comprado uma estante nova para colocar meus livros. Ela deve chegar na próxima semana aí neste endereço onde eu já não moro mais. Quero saber se você poderia guardá-la desmontada naquele quarto de trás. Prometo ir buscá-la assim que tiver paredes firmes para (re)pousá-la.

Talvez demore.

Um beijo,

Ana.

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