brilho

Da areia, olho para o mar. Fico hipnotizada por aquela cor que transita elegantemente entre o azul e o verde. E também fascinada pelo seu pacato balanço. E pelas memórias que tudo aquilo me traz. Estão todas misturadas, confusas; ainda suspensas tentando assentar em algum lugar dentro de mim.

Não sinto vontade de mergulhar. Aquele mar me encanta, mas não me chama. As águas são calmas e não movimentam nem mesmo as poucas jangadas ali ancoradas.
De súbito, lembro de algo que até então passara despercebido. Essas são outras águas. São as antigas: de casa e de temperatura amena. Puxada pela lembrança, vou andando até a borda e sinto o calor nos pés. Entro de uma vez e, mornas, elas me abraçam.

Um abraço suave, que logo estranho. Sinto falta do susto, do gelo, do impacto. A sensação é de lembrar de um amor antigo com carinho, mas sentir falta das emoções do novo despertar de sentidos.

Volto a cabeça à superfície e tenho a certeza de que estou vivendo um daqueles momentos em que você se dá conta de algo importante. Repasso dias, minutos e cenas de uma vida de quem anda tendo coragem de enfrentar os medos. Lembro de soltar o ar dos pulmões para respirar melhor.

Este é um momento raro. Não tenho problemas a resolver. Ou se tenho, já não posso ouví-los.
Saio do mar e olho para a minha pele. Estou brilhando. Por todo o corpo levo pequenos resquícios de algo que se acende com o sol.
A minha purpurina vem do mar. Ela brilha e é discreta.
É uma mistura de areia e sal.
Dias depois, volto para casa, a nova, e ela inteira tem um pouco de areia. O que me faz lembrar daquele mergulho caloroso. Sinto que meu peito agora está aceso por lembranças luminosas, formadas de água salgada e um punhado de rocha dissolvida pelo tempo.
Não adianta varrer. Quartos, banheiro e sala estão reluzindo. É como estar de férias o ano inteiro.
Ou melhor: é como brilhar durante o carnaval particular que me ocorre em cada dia do ano.
IMG_0085

imagem do pinterest

 

2 thoughts on “brilho

  1. Meu Garoto says:

    Eu gosto e viajo contigo no calor da àgua mansa, na pele salgada, no eco dos risos de carnaval. Como é bom perambular por suas palavras, reconhecer seus traços por entre as vírgulas, te sentir.

    Existe um poema que às vezes me recordo quando acontece de me sentir assim, plácido, entregue à vida. Não sei se te mostrei. É este aqui:

    Dádiva

    Um dia tão feliz,
    A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
    Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
    Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
    Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
    O que aconteceu de mau, esqueci.
    Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
    Não sentia no corpo nenhuma dor.
    Me endireitando, vi o mar azul e velas.

    Czeslaw Milosz

    Não sabe a alegria que dá te ver por perto disso aqui.

    Te beijo

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