mar e morangos

Aqui chove e eu resolvi escrever esta carta – que não sei bem ao certo se é para você ou para mim.

Como companhia, trouxe para o quarto a térmica com café fresco e me sinto um pouco culpada sabendo que você vai continuar com aquele trato de tomar chá pela manhã enquanto eu sucumbo ao hábito; ou vício.

A questão é que chove, como naquele dia na ilha em que um livro de poesia nórdica me fez companhia. Lembrei mais uma vez da chuva a lavar os morangos – ou eram os pratos que ela lavava? Estiquei o braço e busquei o livro na cabeceira, o mesmo. Não durmo longe dele, fisicamente, desde aqueles dias.

Abri em uma página que estava já marcada, a do poema dos morangos, como não? Li primeiro, antes de ver o pedaço de papel a marcar alguma coisa. “Sem apressar a festa para chegar ao fim”. Foi aí que olhei: uma foto. Daquela sessão que você espalhou pelo meu quarto, escondidas nas minhas roupas, livros e gavetas, num dia de breve despedida.

Na imagem, somos nós dois e o mar. Somos nós dois e o mesmo muro pequeno onde estivemos ontem, relembrando as fotos bonitas que já batemos ali. Esta, por sinal, nos passou despercebida. Foi a primeira, lembra? Saídos ainda trôpegos de uma festa de rostos estranhos onde só nos restou confessar sobre amores e passados.

Atrás da foto tem um escrito, como em todas as outras que você deixou: ”altruísmo, egoísmo”. Ou talvez a ordem seja inversa, mas quero que seja essa. As palavras fazem parte de uma conversa engraçada sobre suas manias de repetir com ar professoral coisas que te encantam. Eu acho lindo. Mas hoje, elas falam diretamente com essa dor que me salga os olhos.

Nos encontramos nas águas. Navegamos um rio, dançamos na chuva e mergulhamos no mar. Fizemos delas, fluidas, uma testemunha do nosso amor. E com elas tento aprender que nada é fixo. Estamos em movimento, como é bom. E preciso admitir: somos mesmo, como você falou, essa mistura maluca de pensamentos de ações a transitar pelo egoísmo e pelo altruísmo. Assim, nos mantemos vivos ao longo de gerações.

Mas eu quero ainda acreditar que não basta estar vivo; é preciso sentir em chamas o peito. E, para isso, só desequilibrando a balança. Só seguindo o caminho em que o eu vai perdendo sentido. Em que o meu sorriso reside na tua capacidade de também sorrir. E, para isso, é preciso renunciar de si para abraçar o nós.

Eu nunca tomei o mar como inimigo. Nunca tive medo de suas travessias. É um aliado para quem agora entrego meu amor.

Navega, meu bem. E volta – pois ainda há terras a se avistar no meu coração.

Júlia.

IMG_6312

imagem do pinterest

 

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