dois portos e muito rio

Atracada na ilha que ficava no meio do caminho entre os dois portos, mas ainda de dentro do barco, não entendia a pressa das pessoas em pisar na terra. Tanto custara me desfazer da margem, aquela falsa ideia de sustentação, que a minha vontade era nunca mais deixar o balançado da água.

Comecei a primeira viagem depois de um convite vagabundo e irresponsável. Nem pensei muito e fui dizendo sim a cada passo, num jogo delicioso de seduzir e deixar-se cativar. Mal sabia eu que era impossível tirar a roupa sem também despir a alma.

Pousei no segundo destino com a bolsa até a borda de convicções. Corpo fechado. Fincava, mais uma vez, certezas dentro do peito e imaginava estar no comando. Já havia perdido qualquer rédea há um certo tempo, desde que resolvi voltar a acreditar, lá na primeira aventura.

Encontrei cada um dos abrigos em tempos diferentes, mas em nenhuma das circunstâncias eu os buscava. Tampouco buscava a mim nem a ninguém. Nem fugir nem ficar. Nem entender nem perguntar. Caminhava apenas com uma distração faceira de quem tem muito pouco a perder. Mas oferecia, a todos, tudo o que tinha.

Seis meses separam as duas rotas e há tanta vida entre isso que quase nem consigo fazer caber no peito. No papel, rabisco para tentar organizar. Um é puro anseio, o outro é só entrega.

Mistério, carícia, tapa a cara.

Afago, promessa, poesia.

Nos dois, muito prazer, distância e uma certa dor.

Mal sabem, porém, que são os responsáveis por me resgatarem de um exílio de mim mesma, cada qual a sua maneira. Ouvi, depois, que tudo isso que eu falava era uma maneira de encarar o fato de que vamos todos morrer. Eu prefiro pensar que é apenas a minha maneira de estar viva.

Hoje, ainda bem, volto a repousar meu olhar nas coisas, que já não são mais só coisas. Repouso também minha alma. E aí voltamos a fazer sentido.

Há momentos da vida, em que palavra nenhuma supera isso. Sentir.

É como cantou Rita Lee. Algumas coisas são tão simples que caberiam num cartão postal. Ou num muro, ou numa folha de ofício grudada no poste, num board do pinterest ou até mesmo em uma carinha preguiçosa que a gente digita de forma leviana, para o bem ou para mal.

Com quase nada, a gente fala tudo que precisa.

Seja um chamado, seja um adeus.

 

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aniversário

Eu cheguei dizendo um ‘eu te amo’ baixinho, no canto do teu ouvido. era só pra a gente ouvir e saber. Te paquerei das janelas. Do carro, do metrô, dos apartamentos, do avião. Hoje, te quiero con fuerza total e te olho de dentro. Sou tua paisagem e ao mesmo tempo te miro. Já nem escondo: me derreto, me jogo, soy loca por ti. E você, danada, sabe. Não me pega pela mão, mas me agarra pelos cabelos. Seduz sem pedir licença e me toma pra dançar de madrugada, em cima do viaduto, perto demais do parapeito. Amanhece meio rosa e eu vou. Olhinhos fechados, coração escancarado.

Feliz aniversário para a mais aquariana das cidades. Festeira, coletiva e temperamental. Perigosa, mas generosa.
Meu fechamento é você, essepê

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*postado no facebook em 25 de janeiro de 2017*

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Não são nem nove horas da manhã.
Você já viveu uma vida inteira.
Saiu de casa desesperada achando que tinha perdido a carteira. Engasgou com café e melão.
Acordou o motorista do uber do dia anterior, nada. Ligou na clínica, nada. No restaurante, ninguém atendeu.
Nada.
Correu pra terapia, fazer o quê?
Falou da mãe.
Falou da casa.
Falou do amor, do horror, do passageiro.
Levou uns bons tapa na cara e disse: tou sem cabeça, Josefina, perdi minha carteira.
Quis marcar uma sessão extra para sexta-feira. Nem isso conseguiu. O que ela vai pensar?
Achou que tinha perdido o controle completo da própria vida.
Uma menina subiu a ladeira de bicicleta e você se sentiu inútil. Lembrou do poema de Matilde Campilho, pois não tem caixa torácica para isso.
Encontrou a carteira dentro da mochila e teve uma crise se riso da própria cara.
Maldita mochila cheia de bolso falso dos inferno.
Começou a chorar. A vida é boa mesmo.
Deu um pequeno soluço e recebeu olhares.
Começou a rir porque fazia tempo que não chorava.
Hoje ainda é terça-feira e você viveu uma vida inteira.
Mas agora são nove e vinte e você está atrasada.

em trânsito

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São muitas noites, madrugadas, raios de sol, nuvens, estrelas e horas que passei assim. Olhando dessas janelinhas pra uma imensidão. A de dentro e a de fora.

Você não cansa? Às vezes sim. Eu acho que canso. De gastar um dinheiro que nem tenho, de me estressar no trânsito indo para o aeroporto achando que vou perder o voo, de fazer as malas, de desfazê-las.

Ai, as malas. Nelas, não carrego só roupas e livros. Isso é o de menos. Fazer e desfazer sensações abraços, trocas, experiências… Quase sempre é preciso se livrar do peso para não pagar excesso. Quando se vive em fronteiras, é preciso escolher a dedo o que levamos, principalmente no coração.

Eu reclamo desse deslocamento até mais do que eu gostaria. Resmungo, faço muxoxo. Queria teletransportar. Ai que saco. Mas aí, quando já estou no ar, tudo começa a passar e dissolver feito fumaça. E basta chegar em algum dos destinos, que eu me transformo.

Eu chego em uma de minhas casas e meu peito enche de alegria, de umidade, de sal, de farra, de chamego, de toque, de história. Eu brinco de fazer presente com o que parece passado.

Eu pouso na outra casa eu tenho o novo, a liberdade, os sorrisos, as cumplicidades, o trabalho, as descobertas. Eu fico inventando o agora com o que tem cheiro de futuro. 

É um ir e vir sem fim, mas que já me faz parte. Por tempos quis negá-lo. Achei que precisava admitir um lado só dessa história. Preciso?

Às vezes a gente queria ser que nem sol, que amanhece em todas as manhãs. Não dá. Mas não tinha uma palavra em um livro que falava sobre aqueles que vivem entre dois mundos? E dois mundos são muitas coisas. Porque viver na fronteira é deixar a porta aberta, para entrar ou para sair.

Está enganado que pensa que andar em cima do muro é sinal de fraqueza. Para ser equilibrista é preciso pisar firme. Olhar em um ponto fixo, seguir, concentrar e, acima de tudo, aceitar o balanço.

É que nem barco sem motor. Que sobe e desce com o movimento da maré, chega a parecer sem rumo ou à deriva, mas sabe direitinho onde atracar. E em cada porto, descobre um amor.

Essa sou eu. Uma vida em trânsito.

Um coração, duas moradas

cicatrizes

É difícil admitir-se frágil. É foda dizer que dói.

Na maior parte do tempo, a gente se mantém ali, quase firme, enraizada na coragem que inventamos depois de todas as outras quedas. Na certeza de que levantar sempre foi uma opção. De que nunca tivemos vocação para o fundo do poço. 

Quantas vezes a gente não envergou que nem pau de bananeira, até encostar as pontas, e não quebrou? Levanta pra cair de novo. Tá pronta pra outra. Mar calmo nunca fez bom marinheiro. Balança, mas não cai.

Até que um dia a gente se depara com o impacto. Tij. Tei. Pam. A gente quebra, sim. A gente dói, sim. 

Se jogar é gostoso, mas tem seus perigos. Na poesia fica bonito. Vai lá, te atira, mulher! Desce a ladeira com o vento nos cabelos. Sente a adrenalina de ir caindo, seguindo, avançando e observando o que vai ficando pra trás. Fala o que tu quer. Coragem. Vai pra cima. Tu é mais. Arrisca. Abre os braços. O peito junto.

Só que na vida real, o asfalto tá logo ali. E ele arranha, rasga, machuca e sangra a o corpo.

Tem tapa na cara que arde mais. Tem soco no estômago que te tira o ar por mais que alguns segundos. Tem topada que arranca o dedo inteiro. Tem pessoa que vai embora e leva com ela um pedaço da gente. Tem porta que fecha e não abre mais.

Quando a corda arrebenta, não tem equilibrista que se segure. Não tem rede de proteção que sustente. É queda livre e agora já foi. Ninguém está seguro, afinal de contas.

E tem fratura que, pra sarar, tem que ficar exposta. Não abafa, não bota gaze, não assopra, tira o gesso.

Estar vivo é ser vulnerável.

É permitir partir-se. Ou só partir.

É doer até não saber se vem de dentro ou de fora. Se foi pancada ou amor.

É chorar até perceber que sangrar não é o problema. Nem nem sofrer, nem arder, nem romper.

Tem hora que chega!  É preciso sentir que a pele não regenera igual. Aceita: a ferida já é tua. Está virando cicatriz. Pra sempre ali, mesmo que imperceptível a olho nu.

A vida é sobre essas marcas. Não se trata, porém, de colecioná-las.

As cicatrizes existem apenas como testemunhas de toda aquelas vezes em que a gente engoliu os riscos e disse sim pra vida.

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retrospectiva/expectativa

Vim num galope doido sem parar sem cela sem rédeas.
Só senti o vento embaraçando os cabelos.
Umas vezes trouxe uns grãos de areia que batiam no olho e doíam. mas não para.
fecha o olho e acelera.
Correr é esperar em movimento, eu li.
Só que fui saltando pulando tropeçando destrambelhando.
Aproveitei. Tomei banho de chuva até mesmo quando tinha uma sombrinha na bolsa.
Senti os pingos. Senti a vida. Pra caralho.
Outras vezes não senti foi nada. Fui tocando em frente, sem compreender muito a marcha.
Chorei menos do que gostaria.
Automatizei passos. Outros, planejei até demais.
Vivi and vivo muito. I’m alive, I’m alive.
Entorpeci-me de vida, de álcool, de fumaça, de gente, de som.
Voltei a usar música como companhia e terapia.
Percebi o ar. Respirei. Entrei, entrei, entrei.
Agora, quero tempo. Pra me encontrar, pra te encontrar. pra colher flor, pra tomar chá. Tempo pra ter tempo.
Pra correr e pra parar. Pra ser pássaro e ser preguiça.
Pra ser inércia e sair dela.
Pra sentir todos os momentos.
Vem, 2017. Mas vem com tempo pra ficar.
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foto do pinterest

 

é urgente

Deixa eu viver isso um pouquinho, vai. É que eu cansei de me gabar e de andar com o troféu da liberdade embaixo dos braços.

Eu te garanto que aprendi tudo. Na teoria, eu entendi direitinho a diferença entre amor apego carência desejo e tudo mais aquilo que discutimos às terças-feiras no centro. Sei do caminho interno ainda a ser percorrido.

Mas, agora, eu só queria misturar tudo isso como se misturam os cheiros que já ficaram no meu lençol.

Eu tenho distribuído alguma poeira de amor por aí. Mas não é só isso.

Cheguei na beirinha do mar tantas vezes e o calor não passa. Quero entrar de vez, sem receio de levar um caldo. Cansei de dar as desculpas que inventei e outras que ouvi por aí e tenho reproduzido para não tirar o colete salva-vidas. Pra que boiar se lá no fundo é onde as coisas acontecem?

Tenho andado me perguntando se perdi aquela capacidade de ser intensa. De rasgar, de roer, de gritar. Dia desses precisei usar a dor dos outros para conseguir chorar. E ainda foi choro baixo, com sete segundos de lágrimas caindo pelo rosto.

A verdade é que eu sinto uma saudade danada de dizer eu te-amo-te-quiero-me-abraça para quem deita ao meu lado. Eu só queria não ter medo de sentir de novo aquele treco maluco. Estando pronta ou não, quero reaprender a me atirar, sem saber no que tem depois da esquina.  Não sei ainda o que é, mas tenho pistas de que pode ser gostoso. Por que eu ainda estou aqui, então?

Quero tirar o cinto de segurança, me meter na contramão e, com sorte, encontrar um poema de Ana Cristina Cesar que me acalme o coração no dia seguinte.

Quero ficar horas procurando uma música que descreva aquele momento exato que meu nariz encaixa na dobrinha do teu pescoço.

Quero ser um pouco louca, um tanto trouxa e criar alguma expectativa.

Quero te dar bom dia com com um boa noite sem vergonha enviado às quatro horas da manhã. Pensei em você, dorme bem.

E nem precisas responder. Ainda é sobre mim. Eu só quero voltar a sentir aquela urgência de sair dançando Modern Love me equilibrando no meio fio.

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